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Conversas sobre dinheiro

Casal deve ter dinheiro só seu? O valor livre de cada um

Esconder compra do parceiro é mais comum do que parece. Por que ter um valor só seu ajuda a evitar isso, e como calcular o de cada um.

Madu Freire Avaliado por Mary Kondratieva Publicado em 10 min de leitura

Capa do artigo sobre falar de dinheiro com quem você ama: fundo creme, a palavra Conversas sobre dinheiro em letra grande e o mascote do Paca.

A sacola que fica no porta-malas até o outro sair de casa. A blusa nova que, perguntada, “já tinha faz tempo”. O jogo comprado no cartão cuja fatura só um dos dois abre. Nenhuma dessas coisas é grave sozinha, e quase nenhuma custa caro, mas elas costumam ter a mesma origem, que não é falta de caráter nem de amor: é a falta de um pedaço do dinheiro em que a pessoa pode decidir sem precisar explicar.

Então, respondendo à pergunta do título: sim, vale cada um de vocês ter um valor só seu, combinado em conjunto, que cai todo mês e é gasto sem satisfação a ninguém. Não porque o casal precise de distância, e sim porque é a resposta mais direta aos dois motivos que os próprios casados dão quando perguntados por que escondem compras.

O que quatro em cada dez casados não contam

Uma pesquisa do SPC Brasil com a CNDL, feita com 606 consumidores em todas as capitais e divulgada em 2017, encontrou que 40% dos brasileiros casados ou em união estável não contam ao cônjuge sobre todas as compras que fazem (Monitor Mercantil, 22/02/2017; o mesmo número saiu no Correio Braziliense).

O dado é antigo. Um levantamento mais recente, da Onze, perguntou de outro jeito e chegou a 23% de pessoas que fazem gastos ou compras escondidos do parceiro ao menos uma vez por ano (InfoMoney, 17/06/2022). Mas o que interessa na pesquisa de 2017 não é só o tamanho, é o motivo que as pessoas deram. Entre quem omite compras, 61% disseram que fazem isso para evitar conflito, e 25% porque não gostam de ter o dinheiro controlado. E o que se esconde é miúdo: roupa (35%), maquiagem, perfume e creme (30%), calçado (28%).

Leia esses números juntos. O topo da lista não é carro nem viagem, é a blusa, e a blusa é escondida porque contar sairia mais caro do que ela, em discussão, em olhar atravessado, em ter que justificar por que precisava de mais uma. A leitura que esses números permitem é que o gasto escondido parece mais sintoma do que causa, e o que provavelmente falta é algum dinheiro que seja legitimamente de um só.

A própria economista do SPC que comentou a pesquisa na época, Marcela Kawauti, chegou à mesma saída: se os dois concordam que cada um precisa de um espaço financeiro, o caminho é estipular uma quantia do orçamento para cada um, porque é importante que o casal preserve “um certo limite de privacidade”.

Mas juntar tudo não deixa o casal mais feliz?

Esta é a objeção mais forte, e ela tem pesquisa boa por trás.

Um experimento publicado em 2023 no Journal of Consumer Research acompanhou 230 casais noivos ou recém-casados, sorteados em três grupos: abrir uma conta conjunta, manter as contas separadas ou fazer o que quisessem. Em dois anos, os casais da conta conjunta mantiveram a qualidade da relação, enquanto os outros dois grupos tiveram a queda que costuma acontecer depois do casamento; e quem juntou só uma parte do dinheiro não teve o mesmo benefício de quem juntou tudo (Kellogg Insight, 09/05/2023, sobre o estudo de Olson, Rick, Small e Finkel).

A explicação dos autores é que, quando todo o dinheiro é de todo mundo, ninguém precisa ficar contabilizando quem deu o quê. E eles mesmos fazem duas ressalvas que importam aqui: juntar tudo exige abrir mão de uma parte da independência, e em relações em que um dos dois controla o outro, o caixa único pode virar instrumento desse controle.

Repare no que o estudo mediu: a estrutura das contas no banco, não a existência de um valor livre combinado. São coisas diferentes, e é aí que as duas ideias deixam de brigar. Um casal pode ter conta conjunta, um orçamento só e nenhum placar, e ainda assim ter uma linha nesse orçamento que diz “R$ 300 de cada um, sem pergunta”. O valor livre não é uma conta separada; é um acordo sobre um pedaço do dinheiro comum. Qual estrutura de banco serve a vocês é outra decisão, com prós e riscos próprios, e ela tem artigo inteiro: conta conjunta vale a pena.

Por que “mesada” incomoda, e o que muda quando é dos dois

A palavra que muita gente usa para isso é mesada, e ela incomoda por um motivo justo: mesada é dinheiro que alguém dá a outro, de cima para baixo, com uma aprovação implícita no meio.

O valor livre funciona ao contrário. Ele sai do dinheiro do casal para os dois, pela mesma regra, ao mesmo tempo, e ninguém concede nada a ninguém. Quem ganha mais também tem o seu, com o mesmo silêncio garantido. Quando a regra vale só para um, o arranjo começa a parecer tutela, e o caso em que um sustenta a casa e o outro ficou sem renda própria tem armadilhas específicas, tratadas em quando um sustenta o outro.

Há quem viva assim e tenha contado em público. A colunista Erin Lowry descreveu na Bloomberg Opinion o arranjo da casa dela (versão em português na Bloomberg Línea, 01/05/2022): cerca de 90% do dinheiro do casal, entre renda, poupança e investimentos, é tratado como “nosso dinheiro”, e os outros 10% vão para contas separadas, com um valor para gastos pessoais depositado todo mês na conta de cada um. Ela ganhava mais que o marido quando escreveu, e mesmo assim os dois recebiam a mesma quantia, porque na opinião dela o rateio pela renda “pode criar uma sensação de direito e separação”; e a ordem que ela defende é a deste artigo, primeiro as necessidades do casal e só depois as contas individuais, senão “é fácil se tornar territorial e autoritário”.

Especialistas brasileiros ouvidos pelo InfoMoney em 17/06/2022 chegaram ao mesmo lugar. Pagas as despesas e separado o que vai para os objetivos comuns, a planejadora financeira Kelli Nogueira, certificada CFP, defende que uma parcela seja usada “como cada um bem entender, como lazer, compras, estudos”, para que a individualidade “fique livre de qualquer julgamento”. O professor de finanças Carlos Heitor Campani, do Coppead-UFRJ, resume em “tem o seu, o meu e o nosso dinheiro”, com uma ressalva: a parte individual precisa de limite, para ninguém se sentir “presa ou injustiçada”.

Quanto: a conta começa pelo que cada um põe na casa

O valor livre não se tira do ar. Ele sai do que sobra depois de três coisas: a parte de cada um nas contas da casa, a reserva e as metas que vocês têm juntos. Por isso a ordem certa é fazer primeiro a divisão das despesas e só então olhar o resto, e é exatamente o que a calculadora de divisão de contas faz: com as duas rendas e o total do mês, ela mostra quanto cada um paga e quanto isso compromete do salário de cada um.

Um exemplo. Renda líquida de R$ 3.500 e de R$ 6.500, contas da casa de R$ 4.000 por mês, divididas proporcionalmente ao salário: um paga R$ 1.400, o outro R$ 2.600. Sobram R$ 2.100 e R$ 3.900. Digamos que cada um ainda separe 15% do que sobrou para a reserva e para a viagem do ano que vem (R$ 315 e R$ 585); o que fica, R$ 1.785 e R$ 3.315, paga primeiro os gastos pessoais previsíveis de cada um, como transporte, celular e academia, e é dali, depois deles, que sai o valor livre.

A partir daí existem dois jeitos de definir o número, e nenhum é o certo para todos:

valor igualvalor proporcional
como funcionaos dois têm o mesmo valor, por exemplo R$ 300 cadacada um fica com o mesmo percentual do que sobrou, por exemplo 10%: R$ 178,50 e R$ 331,50
a lógicao lazer de um vale o mesmo que o do outrosegue a mesma régua da divisão da casa
quando pesaprecisa caber no resto de quem ganha menos: R$ 300 é uma fatia bem maior de R$ 1.785 do que de R$ 3.315a diferença de liberdade entre os dois fica visível todo mês

Se vocês já dividem a casa pela renda, o proporcional mantém a coerência. Se a diferença de salário é grande e um dos dois se sente sempre o “pobre do casal”, o valor igual dá aos dois a mesma liberdade de gasto, desde que caiba no orçamento de quem ganha menos; e em conta única, em que o valor livre sai do caixa comum e não do resto de cada um, quem ganha mais acaba financiando parte do valor do outro, o que precisa ser dito em voz alta para não virar cobrança depois. Essa escolha é de vocês, e ela é mais uma conversa sobre o que é justo do que uma conta. E se o mês está tão apertado que o valor livre sai de R$ 50, ele continua valendo, porque o que ele protege é o direito de decidir sozinho, e esse direito não depende do tamanho.

As quatro regras que tornam o valor livre de verdade

Um valor livre que precisa ser lembrado, pedido ou explicado não é livre, e o acordo morre em dois ou três meses sem que ninguém tenha decidido acabar com ele. Quatro regras seguram:

1. Cai sozinho. Transferência automática para a conta pessoal de cada um, no mesmo dia em que o salário entra, ou uma linha fixa no orçamento se vocês usam conta única. Dinheiro que depende de alguém lembrar vira pedido.

2. Ninguém pergunta, ninguém comenta. Nem a pergunta inocente (“comprou o quê?”), nem o comentário no extrato, nem a cara de surpresa diante do pacote que chegou. É essa a parte difícil, porque a curiosidade é natural; e é ela que devolve a prestação de contas pela porta dos fundos.

3. O que sobra é de quem sobrou. Se um dos dois guarda o valor por seis meses para comprar uma bicicleta, a bicicleta é dele, e o dinheiro acumulado não vira, no meio do caminho, reserva do casal porque “estava parado”.

4. O limite é o próprio valor. O acordo cobre o que cabe nele, e não cobre parcelamento que compromete os meses seguintes, empréstimo, nem dívida nova. Se o que está escondido já não é uma blusa e sim uma dívida, a conversa é outra, e o roteiro dela está em descobri que meu parceiro tem dívidas escondidas.

Privado não é o mesmo que secreto

Existe uma diferença que vale deixar dita, porque ela responde ao medo de quem acha que o valor livre abre a porta para a mentira. O valor livre é privado: os dois sabem que ele existe e quanto ele é, só não sabem no que foi gasto. O gasto escondido é secreto: o outro não sabe nem que o dinheiro saiu.

Um é combinado e o outro é omissão, e a aposta do acordo é que o primeiro diminua o segundo: quem tem um espaço legítimo para a blusa perde o motivo para escondê-la.

E se, mesmo com o valor combinado e respeitado, as compras escondidas continuarem, o problema já não é a falta de espaço. Aí vale olhar para o padrão das conversas de vocês, e o caminho começa em como falar de dinheiro sem que vire discussão.

Como fechar o valor livre em quarenta minutos

Quarenta minutos, os dois, com os números na frente:

  1. Coloquem as duas rendas e o total das contas da casa na calculadora e anotem quanto sobra para cada um.
  2. Tirem desse resto o que vai para a reserva e para as metas.
  3. Escolham entre valor igual e proporcional, e escrevam o número de cada um.
  4. Agendem a transferência automática para o dia do salário.
  5. Marquem no calendário, daqui a três meses, uma conversa curta para ajustar o valor, sem discutir no que ele foi gasto.

O número que sair pode ser pequeno. O que ele compra, e que não aparece em extrato nenhum, é a sacola que deixa de ficar no porta-malas.

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Conteúdo editorial do blog do Paca Finance. Não é recomendação de investimento. Saiba como produzimos e revisamos nossos guias na política editorial.